Estudo sobre como perdoar. Um homem e uma mulher abraçados se perdoando.

Devocional: Como perdoar quem te magoou profundamente

Neste devocional sobre como perdoar, vamos mergulhar em Colossenses 3:13 e entender que o perdão não é um sentimento, mas uma chave para a sua liberdade.

“Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou.”
Colossenses 3:13 (NVI)


✝️ Reflexão Bíblica sobre o Perdão

Há três anos, uma pessoa próxima a mim — alguém que eu considerava família — espalhou mentiras sobre meu caráter que quase destruíram minha reputação na igreja. Lembro-me de sentar no banco da frente do carro, no estacionamento vazio, e chorar de uma maneira que não chorava desde criança. Não era apenas a tristeza da traição, mas a revolta de saber que eu não tinha feito nada para merecer aquilo. Durante meses, sempre que alguém mencionava o nome dessa pessoa, meu estômago embrulhava. Eu sabia que a Bíblia mandava perdoar, mas sinceramente? Eu não queria.

O perdão é provavelmente o mandamento cristão mais pregado e menos compreendido. No Brasil, onde a cultura do “olho por olho” ainda é forte e onde muitos confundem perdão com fraqueza, cristãos carregam mágoas por anos enquanto repetem mecanicamente “eu já perdoei” — mas o rancor continua vivo, pulsante, envenenando tudo por dentro. A verdade inconveniente é que muitos de nós não sabemos como perdoar de verdade; apenas enterramos a mágoa fundo o suficiente para fingir que ela não existe mais.

O Que Significa “Perdoar como o Senhor”?

Quando Paulo escreve “perdoem como o Senhor lhes perdoou”, ele usa a palavra grega charizomai, que vem da mesma raiz de charis (graça). Literalmente significa “conceder um favor de maneira graciosa”, “cancelar uma dívida”, “liberar generosamente”. Não é apenas deixar passar ou tentar esquecer — é um ato deliberado de cancelar a conta que o outro tem com você, mesmo quando a dívida é real e impagável.

O contexto cultural aqui é fundamental. Paulo estava escrevendo para a igreja de Colossos, uma comunidade onde escravos e senhores, judeus e gentios, ricos e pobres tentavam conviver sob o mesmo teto. Não eram conflitos teóricos — eram mágoas reais, injustiças históricas, opressões sistemáticas. E mesmo assim, Paulo diz: perdoem. Não porque a ofensa não importa, mas porque vocês foram perdoados de algo infinitamente maior.

Aqui está a teologia dura que muitos pregadores evitam: perdão bíblico não é um sentimento, é uma decisão. Não é esperar até que você “sinta vontade” de perdoar — porque se for assim, algumas pessoas nunca serão perdoadas. É escolher liberar a pessoa da dívida emocional que ela tem com você, mesmo quando tudo dentro de você grita por justiça. É abrir mão do direito de vingança e entregar a situação nas mãos de Deus.

Para entender como perdoar, precisamos limpar o terreno dos mitos tóxicos. Perdoar não é fingir que nada aconteceu. Não é dizer “está tudo bem” quando não está. Não é necessariamente reconciliar ou voltar a confiar na pessoa. Não é abrir mão de limites saudáveis. Não é permitir que o abuso continue. Você pode perdoar alguém e ainda assim nunca mais ter um relacionamento próximo com essa pessoa — e está tudo bem.

Jesus deixou isso claro na parábola do servo impiedoso (Mateus 18:21-35). Pedro pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” Pedro achava que estava sendo generoso — rabinos da época diziam que três vezes era o suficiente. Jesus responde: “Não sete, mas setenta vezes sete.” Isso não é matemática literal; é uma forma hebraica de dizer “sem limite”. Mas note: Jesus não disse que a pessoa ofensora não precisa arcar com consequências. O servo impiedoso foi perdoado da dívida, mas depois enfrentou justiça quando não perdoou outros.

O que Jesus está ensinando é que perdão é diferente de consequências naturais. Deus nos perdoa de nossos pecados, mas muitas vezes ainda enfrentamos as consequências deles. Você pode perdoar um marido infiel, mas isso não significa que o casamento será restaurado automaticamente — confiança leva tempo para ser reconstruída. Você pode perdoar um sócio que te roubou, mas isso não significa que você deve continuar fazendo negócios com ele.

A maior mentira sobre perdão que a igreja brasileira perpetua é que “perdoar é esquecer”. Não, não é. Deus mesmo diz “dos seus pecados não me lembrarei mais” (Hebreus 8:12), mas isso não é amnésia literal — é uma decisão de não usar nossos pecados contra nós. Como perdoar na prática? É escolher não trazer de volta à tona, não usar como arma, não deixar que defina o relacionamento. Você pode lembrar da ferida e ainda ter perdoado. A diferença é que a lembrança não vem mais acompanhada de veneno.

Aqui está o que mudou minha vida sobre perdão: percebi que eu estava me machucando mais ao guardar a mágoa do que a pessoa que me feriu. Era como se eu estivesse tomando veneno esperando que o outro morresse. A falta de perdão é uma prisão onde você é simultaneamente o prisioneiro e o carcereiro. Quando finalmente decidi perdoar aquela pessoa que mencionei no início, não foi porque ela pediu desculpas (nunca pediu) ou porque mereceu (não mereceu). Foi porque EU precisava de liberdade.

O perdão não é primariamente sobre a outra pessoa — é sobre você recusar permitir que a ofensa continue controlando sua vida. É sobre quebrar o poder que aquela mágoa tem sobre seu coração, suas emoções, sua paz. É sobre confiar que Deus é justo e que Ele cuidará da justiça melhor do que você jamais poderia.

Paulo adiciona outra camada em Efésios 4:26-27: “Não deixem que o sol se ponha estando vocês ainda irados, e não deem lugar ao diabo.” Mágoa não resolvida é uma porta aberta para o inimigo. Quanto mais tempo você alimenta a amargura, mais ela cresce, mais ela contamina outras áreas da sua vida, mais ela te afasta de Deus. O perdão é, em última análise, um ato de guerra espiritual — você está fechando uma porta que o diabo quer desesperadamente manter aberta.

No Brasil de 2026, onde relacionamentos estão cada vez mais frágeis e superficiais, onde as pessoas bloqueiam e cancelam umas às outras com um clique, o perdão cristão é um testemunho radical. É uma declaração de que você não é definido pela ofensa que sofreu, que o amor de Deus é maior que a mágoa humana, e que existe um caminho melhor do que o ciclo interminável de ferida e vingança.


🌱 Vivendo uma fé prática no dia a dia

  • Escreva uma “Carta de Perdão” (que você não vai enviar): Pegue papel e caneta e escreva uma carta para a pessoa que te magoou. Seja brutalmente honesto sobre a dor que sentiu. Depois, termine a carta com estas palavras: “Eu escolho te perdoar e liberar você dessa dívida comigo. Entrego esta situação nas mãos de Deus.” Não precisa enviar a carta — o exercício é para você, não para o outro. Depois, ore e rasgue a carta simbolicamente, declarando que está liberando a pessoa.
  • Pratique o “Teste da Raiz de Amargura”: Toda vez que você pensar na pessoa que te feriu esta semana, observe sua reação física e emocional. Seu estômago aperta? Sua mandíbula trava? Você sente raiva imediata? Se sim, ore imediatamente: “Deus, eu escolho perdoar de novo. Tira esta raiz de amargura do meu coração.” O perdão, às vezes, não é um evento único, mas um processo de escolhas diárias.
  • Declare perdão em voz alta: Encontre um lugar privado, fale o nome da pessoa (ou situação) que te machucou e diga em voz alta: “Eu perdoo [nome] pelo que fez. Cancelo a dívida que [ele/ela] tem comigo. Entrego esta situação a Deus.” Há poder espiritual na declaração verbal. Não espere sentir vontade — faça a declaração pela fé.

🙏 Para orar

Pai de misericórdia,

Confesso que tem sido difícil perdoar. A dor foi real, a injustiça foi verdadeira, e meu coração ainda sangra quando lembro. Mas eu sei que guardar esta mágoa só me machuca mais. Ajuda-me a perdoar não porque a pessoa merece, mas porque Tu me perdoaste quando eu não merecia. Dá-me força para cancelar a dívida, para abrir mão da vingança, para confiar que Tu és justo e farás justiça a Teu modo e tempo. Cura as feridas que essa situação deixou e não permitas que a amargura crie raízes no meu coração. Que eu seja livre para viver em paz, sabendo que o perdão não é fraqueza, mas a força que vem de Ti.

Em nome de Jesus, que perdoou até na cruz, amém.